Mostrar mensagens com a etiqueta Escrita. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Escrita. Mostrar todas as mensagens

29 de setembro de 2009

92 Anos

Quero chegar assim à sua idade, como a vejo todos os dias. Com sapiência, tolerância, espírito crítico, humor, presença e principalmente com aquela palavra que diz no momento certo, na hora exacta, que nos suporta e nos faz tomar as decisões mais sábias. Ainda só vivi 28 dos seus 92 anos, 64 deles conheço-os pelas fotografias escassas guardadas nos sacos rotos antigos e pela riqueza das histórias guardadas na sua memória, que ganham vida nas palavras que profere de uma forma tão intensa. Todos os dias consigo encontrar mais uma razão para admirá-la mais um pouco, não é difícil. Quero seguir os seus passos, quero aprender mais consigo, quero que saiba que quero ter 92 anos e ser como a avó.


Parabéns.

3 de fevereiro de 2009

O Calendário

Acordo para mais um dia. Este dia que agarro com ambas as mãos, com a força de um leão. No calendário é só mais um dia. Risco-o com uma cruz, mal definida como as linhas da vida. Incertas, desbotadas e frágeis. Passava por ele e não era foco da minha atenção. Nunca o foi. Ainda marcava Setembro de 2008. Tanta vez olhei mas não vi, como aquelas coisas que estão mas não estão e acabam por passar despercebidas. Tanta coisa que estava lá. O relógio parado há anos, a carta que escreveste em cima do baú, a planta não regada, a fotografia sem moldura, o lápis por aguçar e o beijo por dar. Folheei-o até à data de hoje e tudo começou com a cruz incerta como a minha vida. Porquê eu? Porquê a minha vida a desmoronar? Porquê o meu calendário a terminar? Dei corda, reli-a e guardei-a, reguei-a, emoldurei-a e agucei-o para poder riscar os dias seguintes. Guardei-o para to poder dar, ainda hoje. O beijo que devia ter saído de mim há muito tempo e o qual já te devia pertencer. Todos os dias uma nova cruz. Dias do calendário vividos como deveria ter vivido toda a minha vida. Todos os dias uma nova cruz, até o carvão do lápis acabar.

30 de janeiro de 2009

o meu dicionário

Fim-de-semana, s. m. espaço de tempo que decorre desde o beijo das dezanove horas de sexta-feira, de um longo acordar de sábado com o esboço do teu sorriso até domingo à noite com o toque dos teus lábios quando os olhos repousam na almofada.

27 de janeiro de 2009

Código de Barras

Passaram os meus anos, passou o teu aniversário e eu sem postar. Muitas vezes à espera que as palavras saíssem, outras vezes saíam disparadas mas o tempo era pouco para as agarrar. A verdade é que sinto saudades de me sentar e estar um bocado contigo. O teu 4º aniversário. Apesar de as palavras não terem estado presentes, estão todos os dias sentidas por mim. Tenho muito orgulho em ti. Nestes 4 anos partilhámos, lutámos, chorámos, vencemos, sorrimos, crescemos, apaixonámo-nos, sentimos saudades, abraçámos os amigos, visitámos as suas casas e convidámo-los para a nossa. Trouxeste-me o melhor da vida, a felicidade. És o meu cantinho, o que dá vida às minhas palavras e forma aos meus sentimentos. As tuas barras têm-me bem presa, os códigos, com maior ou menor frequência, acabarão sempre por aqui aparecer.

6 de março de 2008

É sempre tudo igual

Ouço a campainha. Será para mim?

Encaminho-a para a sala, a primeira à esquerda. Senta-se na cadeira apoiando os braços trémulos na mesa redonda à sua frente. Fecho a porta, a porta que separa a vida da vida real. Há momentos em que parece que as grades se fecham, o silêncio inicia a busca desenfreada de abafar o mais pequeno som e um olhar desencontrado. Sinto-me numa prisão de sentimentos. Estou na sua vida, aquela que poucos conhecem onde a vergonha e a tristeza ficam com os papéis principais. Déjà vu…não. Já vivi isto. Não é impressão, não são imagens passadas que ficaram retidas na minha memória e que se sobrepõem às actuais. Não. Não é uma reacção psicológica que faz com que sejam transmitidas ideias que já se teve naquele lugar antes. Não. É tudo igual. É sempre tudo igual. Há duas horas atrás o mesmo discurso repleto de dor volta a entrar em mim. As lágrimas a quererem-lhe escapar, as mãos a desenharem no vazio, as pernas torcidas debaixo da mesa e um olhar fugidio. Luta por não o fazer. A dor é tanta. Profiro as palavras que a deixam indefesa: “Chorar faz bem, tem o tempo que precisar.” Caem na mesa como a força de um soco. A força daquele empurrão que a deixou pisada, o estalo que rasgou o seu sorriso, as palavras que perfuraram o seu ego e o olhar do filho que enregelou o seu coração.
Ontem Carla, hoje Maria. Todos os dias gente diferente, histórias iguais. É sempre tudo igual. Amanhã podes ser tu.

19 de novembro de 2007

Como foste parar a esse banco?

Quando me disse que estava internado no Magalhães Lemos não quis acreditar. Imagino-o sentado naquele Hospital. Um banco, o fumo do seu cigarro e alguns meses ainda por passar. Sem vida, sem o sorriso da sua filha e sem as pessoas que ama. Fiquei em pânico. Imaginar um amigo naquele local rodeado de um futuro incerto...talvez sem percepção. Os olhos dela enchiam-se de lágrimas enquanto me contava. E eu, sem reacção, perdida nas palavras, envolvida nos meus pensamentos, à procura de respostas para os ajudar. Isto mexe comigo. Sempre mexeu. Dentro de mim tudo gritava. O medo de poder caminhar para algo crónico, sem retorno, aflige-me. Como se a marcha atrás não existisse. Consumia haxixe desde muito novo. Hoje mais velho está sentado num banco de um hospital. Imagino-o a dizer: "Só consumo isto, drogas pesadas nem pensar, isto não faz mal a ninguém." Bastou-lhe esta droga leve para o deixar pesado provavelmente para o resto da vida. Diagnóstico: Psicose Tóxica devido ao consumo excessivo e prolongado de Cannabis. Duração: Incerta. Só depois de se suspender o consumo é que será possível diagnosticar uma doença psiquiátrica, como a esquizofrenia. Dói. E dói porque não acontece só aos outros. Como foste parar a esse banco? Ela falou-me na mudança dos teus comportamentos. Que já não te via. Que tinha medo de ti. Medo do teu novo eu. Pediste uma pistola com oito balas para matares cada um deles e em seguida matar-te-ias. Dizias que eras Deus. Cuspias no chão da sala dizendo que estavas no meio da rua. O haxixe deixou-te nesse banco. Ela visita-te todos os dias, tens uma grande mulher. Está assustada. O medo persegue-a...medo que não te tragam de volta. Esse banco onde te sentas pode dar-te uma grande lição. Pode ser o banco das oportunidades. A última oportunidade de voltares a viver são e consciente de ti.

Penso em vocês todos os dias.

12 de outubro de 2007

Excerto da página nove, segundo parágrafo

Quero pegar na caneca do chá e ler o teu livro. Acomodar-me na manta e entrar no teu romance. Está frio. A chuva cai, cai como as tuas palavras. Surgem devagar como quem canta pela primeira vez e aquece a multidão. É ter nas mãos os meses que passaram. Tempo em silêncio que fazia parte dos nossos serões. Tempo útil. Onde te tinha pelo som da caneta, pelo encostar na cadeira. Observava-te. Agora, ao ler-te, consigo aperceber-me da expressão daquele dia, àquela hora, naquele segundo. Excerto da página nove, segundo parágrafo. Não é apenas um livro. É o teu livro. Estás aqui. Estão aqui as emoções que senti durante meses. Hoje vivo-as com mais intensidade. Não te vejo apenas, leio-te. Não há barreiras entre o leitor e o escritor. Não há barreiras entre mim e ti.

19 de março de 2007

A claridade que o sol envia à Terra

Sou feliz.
Hoje sinto os dias de uma forma mais intensa. O dia mudou. Mudou porque mudei. O dia já não é uma parte da noite, a noite é um fragmento do dia. Talvez nunca tivesse visto a claridade que o sol envia à Terra como vejo hoje, como a sinto dentro de mim. Os caminhos traçam a nossa vida. Algo interceptou o meu no momento exacto. Como se um vidro bloqueasse o meu caminho e a minha vida continuasse. E eu sempre a vê-la, sem poder fazer nada, sem poder mexer as peças do jogo. E, ali, estática a ver a vida que nunca desejei, embebida na noite sem desejar um novo dia. Não quis ver mais. Não via amor, só dor atrás de dor. Dor, mágoa, sofrimento. Ausência de sorrisos. Um copo sem água, uma flor sem cheiro, um corpo sem vida. Limpei o vidro. Retirei todos os pedaços partidos e reconstruí-o de novo. Se ele caiu ali era porque tinha algo para me dar. Fui tentando dar cor à minha vida. Faltava-me dar cor a mim. Seria um patamar um pouco mais difícil de alcançar. O vidro lá estava, para onde me queria levar? Tinha medo. Medo que o desconhecido me levasse a algo idêntico ao conhecido, onde não queria voltar, onde não queria estar nunca mais. Os dias foram passando, tu foste entrando, deixando marcas pelo caminho, marcas essas que não se foram apagando com a força do vento. Bem pelo contrário, foram ficando cada vez mais marcadas em mim. Entraste e devolveste-me o sorriso que já o sentia perdido e que não sabia onde o encontrar. O vidro foi-se afastando a pouco e pouco, deixando a claridade do dia transpor o meu corpo, tornando o dia mais longo que a noite. Acabou por desaparecer. Deixou-me contigo. Despertei. As variedades de luz que me trouxeste encheram-me de cor. Sei que és o meu vidro, vejo a minha vida em ti, vejo o futuro em nós.

28 de dezembro de 2006

E dos outros também...

Entraste no comboio na estação vazia de todos os dias. Mas nesse dia entraste tu. Imaginava-te de olhos cabisbaixos enquanto procuravas um lugar vazio perto da janela para que te pudesse iluminar enquanto folheavas o teu livro. Todos os lugares estavam ocupados. Apenas um vazio. Um acompanhado por alguém distante, de olhar vago. Esse não lia o jornal, não fazia sopa de letras, não dormia. Apenas não estava lá. Sentaste-te, cruzaste a perna, seria uma viagem igual a todas as outras, onde abrias o teu livro que te levava para longe da multidão que te rodeava. Nesse dia não conseguiste passar da primeira página, não estavas lá, voltavas atrás à procura de algo que te prendesse mais. Mais do que ele. Ele que não reparou em ti, que nem pestanejou quando chegaste, que nunca esteve ali e tu não sabias onde o encontrar. Querias dizer um olá, deixar o livro por um instante, embrenhares-te num diálogo, querias falar-lhe. Nunca te aconteceu. Essa necessidade de falar, de desabafar com alguém que nunca viste, que nunca te viu, que não te sabia dessa forma, nem de forma alguma. Querias falar-lhe dos teus dias, dos dias que sorrias e dos outros também. Dos dias que te sentias feliz e dos outros também. Dos dias que te sentias amada e dos outros também. Sabes, principalmente dos outros também. Daqueles a que estavas aprisionada, dos fechados em ti, loucos por sair, por arrombarem a porta que os mantinha isolados de tudo o resto. Não tinham voz, não tinham cor, eram pedaços de dor atirados para o canto. Uma dor que não curada crescia a cada segundo todos os dias quando a porta era trancada por ti, selada com lacre para que ninguém os ouvisse. Querias falar-lhe porque te viste nele um dia mais tarde, em alguém cuja porta nunca foi aberta e onde permanecia assim atirado para um canto. Assim…como os pedaços de dor que foi amontoando ao longo da vida.

12 de dezembro de 2006

A dança dos sentimentos

Danço contigo. Um passo todos os dias. Sabes-me guiar. Comandas a dança ao som da nossa música. Rodopiamos. Desenrolas-me em ti. As pontas dos dedos são como ímanes. Não se deixam de tocar. Nunca me deixas sozinha. Elevas-me enquanto as voltas se repetem num movimento circular. Fazes-me sorrir. Deslizo sobre ti. A minha anca sente as tuas mãos. Firmes. De quem me tem. De quem eu tenho. A música pára. Os passos aguardam o mesmo compasso. Repeat.

Dançarei sempre a teu lado.

28 de novembro de 2006

sentire

Nós.
De olhos postos no silêncio dos nossos gestos. Dos sorrisos que escapam e sorriem baixinho. Do toque fugidio da tua mão na minha. Da voz que aparece lentamente no meu ouvido e desaparece subtilmente.
Sinto.
A minha mão definida na tua. A cor verde dos meus olhos no tom castanho do teu olhar. O verde que abraça o castanho e deixa-se estar, assim, por estar.

Sinto-nos vivos todos os dias.

25 de outubro de 2006

Da escrita


Queria tanto dizer-te tanta coisa. Queria-te poder escrever. Queria-te desenhar as palavras. Queria que as letras se juntassem sem me pedir licença. Mas não sei escrever assim. Não penses que por não conseguir não sinta. Sinto. E sinto-te demais. Por isso a minha tristeza em não me poder dar-te desta forma. Em não me poderes ler como eu gostava que me lesses.

24 de junho de 2006

Jogo sem regras

Dói-me imaginar-te assim...
perdido num jogo sem regras, sem poderes lançar os dados e definires um rumo que te leve para longe da dor que vejo em ti. Como o amanhã pode alterar a tua vida e olhares para ontem e não te veres lá...não te veres pelo menos como eu te via, como tu, consciente, te vias a ti mesmo. Como um dia pode modificar toda a nossa vida e nem vale a pena olhar para o relógio, o tempo não volta para trás, apenas existe porque a Terra tem que continuar a rodar em volta de si mesmo...tenho medo.

17 de junho de 2006

"You´re so close, I can feel you all around me..."


Percorreste-a com o teu olhar...
Definiste todas as suas curvas, notaste as linhas tonificadas que atravessavam o seu corpo...era como a estivesses a tocar, travando e acelerando sem deixares que a ânsia de quereres mais se instalasse...não, não querias parar, desejavas a cada toque visual que as linhas não tivessem fim. Podias pegar num lápis de carvão e defini-la numa tela...e assim foi, cada traço era desenhado com vigor, ganhando vida podias senti-la mais perto de ti. Empurraste o lápis para cima da mesa, rolou acabando por parar...os teus dedos começaram lentamente a tocá-la, "sentiste" as diferentes texturas da sua pele, sabias onde parava e onde iniciava outra aresta do seu corpo, conseguias "ver" todos os pequenos detalhes...sim, aqueles que a tornavam tão bela, que passavam despercebidos a olho nu mas que ficavam registados na tua memória por serem únicos, por a distinguirem de todas as outras.
Conheces todos os seus cantos...e não a conheces.

9 de junho de 2006

A Dança


“-Vamos dançar?
- Não sei dançar…
- Eu guio-te.”

Começou assim a dança que mudou a tua vida.
Pegou nas tuas mãos, apertou-as suavemente…arrepiaste-te? Eu sei, sentiste um frio na espinha…estavas a ser levada numa viagem que nem tu sabias que já tinha começado. Colou o teu corpo ao dele, o calor atravessava os teus poros, pudeste sentir as energias a fundirem-se numa só…estavas a dançar. Delicadamente acariciou-te a face fechando-te os olhos, fazendo com que apenas sentisses e decifrasses a mensagem que só os passos transmitiam…só vocês sabiam o que estava a ser dito, a ser sentido, a ser dançado. Ficaste horas sem perder o ritmo apenas sorrias cada vez mais, estavas feliz, estavas a dançar…aprendeste novamente a dançar. Há coisas que nunca se esquecem.
“- Obrigada.”

30 de maio de 2006

um sonho...ainda em papel


Hoje fiz uma viagem, viajei pelos meus sonhos...pude ver-me feliz. Era como se estivesse a ver o filme da minha vida e gostava do que via principalmente gostava do que sentia. Estava com vida dentro de mim, acariciava em voltas a minha nova barriga, apenas uma mão diferente da minha, forte e delicada, me acompanhava...e orgulhosa não parava de me olhar, de todos os ângulos aprendia a conhecer mais um bocadinho do meu rosto, da minha cintura, da minha pele, dos meus novos traços e sentia-me única vista daquele perfil. "Sentia-me única...", se pudesse parar a viagem, premir o botão do pause e parar por momentos o sonho, mesmo a imagem ficando desfocada, de certeza que o faria...apenas para sentir só mais uma vez o quanto, um dia, poderei ser feliz.

12 de maio de 2006

nada tinha sentido

Ela deixou de ouvir...

o som silencioso propagou-se ao seu redor, não conseguia ouvir as gotas da chuva cairem delicadamente no seu corpo, apenas as sentia. Deixou de ouvir o seu nome, como se tivesse perdido a identidade, já não sabia como soava, tentava sílaba a sílaba fazer com que o som ganhasse vida. Sentia-se no fundo dum poço sem eco sem poder ouvir a sua voz, doce e forte ao mesmo tempo. Nada tinha sentido. Não ouvia nem o seu próprio respirar, foi a mesma sensação que teve quando mergulhou em alto-mar e não sentia a sua respiração. Fechou os olhos,
escondeu as mãos, sentiu-se inexistente, sentiu-se só...perdeu os sons da vida...